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terça-feira, 3 de setembro de 2019

Pedinchice

Todos sabemos que, perto das eleições, os políticos prestam-se a tudo.
Os governantes fazem campanha eleitoral descaradamente e são capazes dos maiores disparates para agradar a gregos e troianos, mesmo que ao longo do mandato se tenham mantido impiedosamente alheios.
É o caso da secretária regional Ana Cunha, que se deslocou esta semana a Lisboa, como os Governadores Civis faziam antigamente, para “sensibilizar” um ministro para problemas dos Açores que deviam ter sido resolvidos ao longo da legislatura.
“Sensibilizámos o senhor Ministro para esta recomendação e para o seu conteúdo (recomendação do parlamento regional para que a TAP regresse às ligações Lisboa-Horta e Lisboa-Pico)”, disse Ana Cunha, adiantando que Pedro Nuno Santos respondeu que, “dentro daquilo que são as competências do Governo da República, enquanto accionista, diligenciaria, ou sensibilizaria, a TAP, no sentido de operacionalizar o cumprimento desta resolução da ALRAA”.
Ou seja, um membro do governo da nossa região foi a Lisboa confessar a notável incapacidade do seu governo e da SATA em cumprir as obrigações de serviço público.
Não tarda nada, seguir-se-à o secretário da Saúde a pedir socorro para o crónico problema do serviço regional de saúde, que também está de rastos.
Entretanto, na fila de espera poderá estar também o Vice, para pedir que lhe resolvam a falência das empresas públicas e os pagamentos em atraso aos fornecedores.
Deixamos de ter um governo próprio para passarmos a ter um governo de pedintes.
Um dia destes temos todo o governo a pedir que Lisboa nos venha governar.
Com este gesto, o governo do Dr. Vasco Cordeiro inaugurou uma nova modalidade de governação regional: bater à porta de Lisboa para nos socorrer dos problemas em que somos incompetentes a resolver.
Ao que chegou a nossa Autonomia com tamanho vexame!
O pedido de socorro é tão surreal, que o ministro certamente terá avisado que não lhe competia imiscuir-se nas rotas da TAP, como o Governo Regional faz na SATA, pelo que a secretária prontamente veio dizer que “não é uma situação que se consiga obrigar a TAP a fazer, nem muito menos será a curto prazo”.
Então porque foi “sensibilizar” o ministro?
Uma “sensibilização” que nem é para cumprir a curto prazo?
Ele, que acaba a governação daqui a um mês?
Como também nem conseguiram resolver, nesta legislatura, a pouca vergonha do subsídio de mobilidade aérea, que “foi assegurado pelo senhor Ministro que está em desenvolvimento uma plataforma eletrónica que agilizará o processo de reembolso do SSM.”!
Sabem quanto tempo custa a desenvolver uma plataforma electrónica?
Mais de 4 anos?!
Estão a atirar mais bagacina para os nossos olhos… Tal e qual como no caso da nova cadeia.
Tudo isto cheira a campanha e não é para levar a sério.
É uma tentativa desesperada para salvar a face do Governo do PS em Lisboa, que fez um péssimo mandato relativamente aos Açores, ignorando-nos em tudo.
É o mesmo que dizer: atenção eleitorado açoriano, estamos a um mês do fim do governo de António Costa mas ainda é possível demonstrar que, com jeitinho, estamos aqui unidos à volta de temas importantes que nunca conseguimos resolver em quatro anos, mas vamos resolver depois das eleições… se votarem em nós.
O ridículo não ficou por aqui.
Estendeu-se, também, à ampliação do aeroporto da Horta, outra pedinchice que não dependerá apenas do Governo da República, mas também da ANA, que o administra, nem tão pouco é obra para este mandato.
Temos, portanto, tudo intenções, profissões de fé, “sensibilizações”, manifestações de interesse e muita pedinchice, de chapéu na mão, como nos tempos da velha senhora.
Em vez do Governo Regional estar preocupado com aquilo que é seu, naquilo em que manda, como é, por exemplo, a ampliação do aeroporto do Pico, que já devia estar resolvida há muito tempo (sem precisar de ir de chapéu na mão a Lisboa), presta-se a estes papéis no Terreiro do Paço que nos envergonha a todos.
Em vez de se empenhar em resolver a podridão da gestão da SATA, vai para Lisboa esmolar para que venha a TAP!
Não é só a região que fica mal com estas manobras eleitorais em que ninguém ganha nada.
É a própria política que se vai matando a si própria.
É o descrédito cada vez maior junto dos eleitores.
É mais um contributo para os cidadãos desabafarem, com razão, que afinal “são todos iguais”.
Setembro 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese TImes EUA, LusoPresse Montreal)

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