Diz António Canotilho “Estou completamente desiludido com a política e com as pessoas que fazem política” - Azores Today

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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Diz António Canotilho “Estou completamente desiludido com a política e com as pessoas que fazem política”

De onde é natural e como foi a sua infância?
Sou beirão, sou da Guarda, nascido e criado numa família de média burguesia tradicional, em que os princípios e os valores me foram sempre transmitidos desde a mais tenra idade. A importância das reuniões de família, os almoços e jantares em família, só comermos quando estivesse toda a gente, os almoços ao Domingo em casa da avó com a família toda reunida, a Páscoa, o Natal. Tudo era celebrado em família, todos juntos.
O meu pai era comerciante, de média burguesia, só se passava férias uma vez por ano na Figueira da Foz, prendas era nos anos e no Natal, tal como os bolos que era só aos Domingos. As coisas mudaram muito.
Entretanto fui estudar para Lisboa, ainda fui para engenharia, mas depois meteram-se os serviços cívicos enquanto monitor num lar de rapazes. Fui para engenharia porque o meu pai queria que eu fosse engenheiro, mas não era aquilo que eu queria e fui para o ISEF – Instituto Superior de Educação Física, para educação física e aí conheci a minha mulher.

Sempre teve ligado ao desporto?
Eu sou filho de uma professora primária. A minha mãe, o maior desgosto que tem é não ser professora de educação física, porque naquela altura não era fácil e o meu avô não a deixou ir.
Sempre fui ligado à actividade física. O meu pai era caçador, eu também caçava. Gostava de jogar basquetebol, fiz parte das selecções do Liceu, sempre estive nas actividades dos escuteiros, na Mocidade Portuguesa.
Nunca tinha ouvido falar de Democracia antes do 25 de Abril mas não dava muito conta, embora o meu pai tivesse sido chamado à PIDE algumas vezes para ser ouvido. Mas nunca houve aquela educação onde se falasse de ditadura. Nem estava na Guarda, estava em Paris na viagem de finalistas.
Quando vou para a Universidade há uma certa indefinição. Fui para engenharia, mas não gostei e fui para Lisboa, para educação física. E é o curso que mais gostaria de ter, quanto mais não seja pela minha forma de estar e de ser, não conseguia estar atrás de uma secretária um dia inteiro. Por isso é que venho com os meus alunos para a rua. Não posso estar parado.

Vai para Lisboa…
Aí conheço a minha mulher, Gabriela Porto, também professora de educação física, e natural da Terceira. Por isso é que estou em São Miguel.
Conhecemo-nos em Lisboa e antes do sismo, em 1979, vim a São Miguel e à Terceira porque tinha cá amigos. Ainda não namorava com a minha mulher, mas sempre fui um mulherengo mas o compromisso a mim sempre me fez confusão. Eu não fui ter com ela à Terceira, mas encontrei-a lá, estava com o seu namorado e convidou-me para ir a casa dela porque a mãe fazia anos uns dias depois de mim.
Mas, ela é do primeiro curso do ISEF e eu sou do segundo. Ela interrompeu porque deixaria de haver estágios só de um ano, ela estava no 3º ano quando eu estava no 2º ano. Ela fica um ano na Terceira que é o ano do sismo, quando eu acabo o 3º ano ela acaba o estágio e volta para o ISEF e aí começamos a ficar juntos. Acabamos por casar, na Terceira, onde das poucas igrejas em condições era a da freguesia de São Sebastião.
Eu vim para os Açores porque a minha mulher vinha efectivar-se e eu vinha fazer estágio, juntando o útil ao agradável. No continente havia muita dificuldade em fazer-se estágio, ela era amiga do doutor Reis Leite, na altura Secretário da Educação, havia poucos professores de educação física e bastou pedir.
Viemos para São Miguel, porque na Terceira não havia lugar para efectivação. A Gabriela foi para a Domingos Rebelo e eu fui fazer estágio para a Roberto Ivens, dois anos. Entretanto abre a Escola Canto da Maia e eu vou para lá e é onde estou desde 1982 até hoje.
Depois, é a vida de professor normal. Sempre ligado à educação física, fomos um pouco pioneiros, eu e a minha mulher. O primeiro ginásio que surgiu cá foi o nosso, na rua de Santana. Era uma garagem mas era o primeiro com balneários. Eu vim para cá e comecei logo a trabalhar, porque gosto de trabalhar e de iniciativa, por isso é que sou um homem da direita democrática. Sou Democrata Cristão, que segue os princípios da doutrina social da Igreja, também estive metido na política. Fui responsável pelo CDS durante muito anos, fui o primeiro assessor para o desporto na Câmara Municipal de Ponta Delgada, durante a presidência de Mário Machado.

Mas profissionalmente sempre ligado à educação física?
Sim. A minha mulher é professora de educação física, mas a sua especialidade era a dança e criou o primeiro grupo experimental de dança de Ponta Delgada. Depois, achámos que devíamos fazer mais alguma coisa e fizemos uma obra de raiz que era o Trampolim – Grupo de Actividades Físicas, onde estivemos até 2006.
Interrompo esta actividade porque ia morrendo um amigo meu ao meu lado, com umas cornadas na Terceira no Alto das Covas. Eu não tenho filhos e achei que o tempo era muito curto, então dediquei-me a outras coisas.
Quando comecei a ter mais tempo, reduzindo mais tempo de aulas, inventei uma coisa óptima que foi um projecto que criei na escola que era o “haja saúde”. Tinha como objectivo dar a conhecer aos alunos e comunidade escolar a importância que a actividade física e a alimentação saudável tinham na sua vida. A nossa escola foi a primeira nesta área. Hoje em dia a Secretaria da Saúde tem um programa com o mesmo nome, mas na altura na escola chegámos a ter protocolos com o Hospital do Divino Espírito Santo com o endocrinologista Rui César que ia lá fazer palestras. Fomos os primeiros a retirar bolos do bar da escola, que agora está lá tudo de novo.
Mas é muito difícil manterem-se estas coisas, depende dos órgãos de gestão das escolas e quando o Governo Regional começou a fazer isso, deixou de correr bem.

Como assim?
Nós pesávamos os miúdos todos para saber o Índice de Massa Corporal, tratávamos os dados e podíamos corrigir as coisas. Agora, fazemos isso mas não temos feedback nenhum. Mas quando era a escola a fazer isso funcionava muito bem.
Depois criámos a Marcha do Coração, que é uma actividade que mobilizava a escola toda. Se bem que agora é uma escola básica integrada e há pessoas das outras escolas que não me dizem nada, não temos ligação.
A Marcha do Coração tem tido uma boa abertura da Câmara Municipal de Ponta Delgada que dá uma verba para podermos convidar as outras escolas a estarem presentes, porque depois recebem uma ajuda monetária para comprar material para educação física. Esta Marcha do Coração, além de chamar a atenção para a importância da actividade física e para a alimentação saudável para as doenças cardio-vasculares, ajuda as escolas todas que participam a poder comprar material para o dia-a-dia.

Em relação aos alunos. Quando começou e agora, há diferenças?
Não tem nada a ver. Os miúdos gostam na mesma da actividade física, mas a mentalidade deles não tem nada a ver com os miúdos quando comecei em 1982. Eram maiores, anatomicamente, eram mais desenvolvidos em termos psico-motores, ao nível do pensamento e entendimento das coisas era outro. Estas crianças actualmente são completamente infantis, são miúdos de 10 anos com uma mentalidade de 6, daquela altura. São extremamente infantis fruto da maneira como são criadas, das facilidades que têm, penso que os computadores e telemóveis também têm alguma influência, e a vida dos pais também mudou. A família não está junta, os pais não passeiam, as crianças não brincam à bola na rua. Há uma diferença muito grande.

É preciso impor regras?
Faltam regras. Isto é uma das coisas que é difícil impor, são coisas que têm de ser a instituição a fazer, quer a instituição família quer a instituição escola. Mas também há muitos professores que já não sabem ser professores.
Antigamente professor era como um médico, tinha de haver vontade para se ser. Agora, as pessoas vão para professores porque não há mais nada para fazer ou vão para médicos porque é uma profissão bem paga. Não há vocação. Antigamente havia o padre, o médico e o professor, as três figuras fundamentais na sociedade e tinham reconhecimento.

Quando saem as estatísticas que as crianças dos Açores são as mais obesas. Como vê esses números?
As estatísticas são estatísticas. Tentamos fazer algumas coisas mas não é fácil. Primeiro porque as crianças são educadas pelos pais e comem em casa, a maior parte deles. Os miúdos sabem o que é comer bem, mas os pais não sabem. Nós fazíamos na escola acções de formação para os pais onde apareciam 20 ou 30 pais, em 500 alunos.
As pessoas quanto menos dinheiro têm, menos bem comem. Depois, as cantinas e refeitórios eram geridas pelas escolas mas agora são empresas. Uma empresa tem sempre como objectivo o lucro, logo a qualidade pode não ser a melhor. Os miúdos são extremamente esquisitos e os pais não têm tempo para os ensinar a comer, e dão-lhes outra coisa se dizem que não gostam, por isso vão para a cantina e não comem por não gostarem da comida.
Houve um tempo que eu me auto-responsabilizei por ver a qualidade da comida do refeitório e a comida era muito boa qualidade, tinha sopa, um prato de carne ou peixe, peça de fruta, água e pão. Mas os miúdos não levam a peça de fruta, nem a água, nem o pão. E depois levam de casa os sumos. Há um regulamento, feito pela escola, que proíbe essas coisas trazidas de casa, mas continuam a ir. E ninguém proíbe, parece que hoje em dia parece que há medo de proibir. Mas temos de começar a proibir porque o Serviço Regional de Saúde vai pagar isso mais tarde. Temos de proibir porque na escola têm de comer comida da escola, tem de ser proibido comer mal. Há miúdos ali que comem todos os dias pizza e bebidas açucaradas.
Neste momento há muita gente obesa e com excesso de peso, são as crianças e os adultos e até os animais de estimação destas famílias são obesos. Tem de ser o Estado a intervir mais, começando a educar as crianças de pequeninos mas também os pais que depois alimentam os filhos.

Como entrou na política?
Na Guarda, a seguir ao 25 de Abril, o meu irmão foi o primeiro dirigente da Juventude Centrista. Toda a vida fomos do CDS. Embora não tivéssemos uma cultura política, mas revejo-me pelo Liberalismo, pela Doutrina Social da Igreja, pela iniciativa privada e toda a vida fui do CDS. Mas neste momento não sou de nada. Sou pelas causas e pelas pessoas.

Está desiludido com a política?
Completamente. Com a política e com as pessoas que fazem política. Conforme diz a palavra, Política é para servir a Polis, o público, a causa pública, e a maioria está na política para se servir.
Por isso vou tentando servir os outros de outra maneira. Faço parte da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres e faço parte de um grupo de distribui cabazes de produtos alimentares, eu tenho ao meu cargo quatro. Vou falando com as pessoas sabendo do que precisam, se estão empregados ou não. Gosto de falar com as pessoas.
Gosto de falar com os alunos, que os miúdos estão muito sozinhos e eu gosto de falar com eles.
Sou uma pessoa que está atenta aos outros, olho para a pessoa e sei que está menos bem e pergunto se posso ajudar. Temos de estar mais atentos ao outro e faço por isso. Na política é isso que vou fazendo. Na minha rua as pessoas dizem que precisam de uma lomba ou qualquer coisa e eu tento ajudar.
Mas para mim a política acabou. Há uns tempos fui deputado municipal na Câmara de Ponta Delgada, mas cheguei à conclusão que ali não se faz muita coisa. Perde-se muito tempo na ordem do dia, as coisas não funcionam e estou muito decepcionado com isso porque poderiam funcionar de maneira diferente se as pessoas tivessem outra atitude e postura.

Nem os novos partidos que têm surgido o atraem?
Não. Não me dizem nada, é só dividir para reinar. Para mim havia um partido de direita e outro de esquerda, Republicanos e Democratas. Uma vez um outra vez outro. Mas os pequenos partidos não são alternativas.
Mas estou numa altura em que já não quero saber disso. Prefiro estar com as pessoas, com os amigos, e tentar ajudar.

Foi romeiro…
Uma vez romeiro é sempre romeiro. Mas não sou romeiro por tradição, temos de ir de romeiro quando sentimos que somos chamados a ir. A minha mulher gostou imenso da cultura à volta do romeiro e da cultura da romaria e criámos a romaria escolar, que já vai no 18ª edição. Começou nas Laranjeiras, a Canto da Maia juntou-se mas agora já não faz parte de nós, faz parte da Pastoral Escolar.
Também estamos ligados a movimentos da Igreja, estamos em várias pastorais e tentamos ajudar assim.
Eu sou de lágrima fácil e facilmente fico com um nó na garganta e cada vez que via passar os romeiros, mexia comigo. Sensibilizo-me muito com estas coisas e resolvi ir também. Mas quando querem fazer associações de romeiros, estragam tudo. Tem de ser uma coisa espontânea e continuar como estava.
Fiz três romarias, a última talvez tenha sido a melhor porque nos acompanhava como apoio espiritual, o padre Leal, que é do continente e é o Contra-Mestre dos Romeiros de São José. Foi extraordinário. Mas não voltei a ter o chamamento de ir de novo.
Também já fiz o Caminho de Santiago duas vezes e faço-o com a cultura do romeiro de São Miguel. Como e bebo bem, como bem, mas no caminho rezamos, entramos nas igrejas e gosto. A ver se vamos novamente em 2021, que é ano jubilar.

Tem tempos livre?
Cultivo o culto dos amigos. Tenho uma mulher excepcional e sou o que sou graças à mulher que tenho. Ela tem-me ajudado nesta caminhada de encontrar o “outro lado”, é uma pessoa muito cristã. Nunca fiz nada aqui sozinho, estamos casados há 37 anos, não temos filhos, mas isso não me afecta nada. Sempre dormi descansado e penso que não dormiria tão descansado se tivesse filhos. Há acidentes, bebidas, droga, isso causa-me preocupação. E a falta de autoridade, quer dos pais quer das autoridades.
Tenho grandes amigos, uma mulher óptima, tenho seis cães, tenho uma casa que gosto muito, tenho algum dinheiro para sair quando quero e passear, e para poder ajudar.
Nos tempos livres jogo golfe, caço na época da caça, gosto de arranjar o jardim, de comer e beber com os meus amigos, gosto de caminhar.

in, Correio dos Açores, 15 de Setembro / 2019

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