No Talho Verde “eu não ofereço preços, ofereço, acima de tudo, a qualidade dos meus produtos” - Azores Today

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domingo, 24 de fevereiro de 2019

No Talho Verde “eu não ofereço preços, ofereço, acima de tudo, a qualidade dos meus produtos”

Desde cedo Vítor Sousa familiarizou-se com o negócio das carnes através do pai, que sempre esteve ligado a talhos. Hoje, com 46 anos, o empresário tem o seu próprio talho, localizado no Rosário, concelho de Lagoa, que adquiriu ao pai há cerca de 25 anos. Ao Diário dos Açores, Vítor Sousa conta como tem sido gerido esta empresa familiar e quais os projectos para o futuro.

Diário dos Açores – Há quantos anos existe o Talho Verde?

Vítor Sousa – O Talho Verde é uma empresa que foi criada nos anos 60 pelas mãos de outro proprietário, antes de ser da nossa família. O meu pai sempre este ligado a esta área, inicialmente ele trabalhou em Água de Pau no Talho Ferraz, que era um dos maiores talhos que existiam em São Miguel e, uns anos mais tarde, abriu o seu próprio negócio. A primeira empresa que teve foi em Água de Pau e, posteriormente, abriu no Cabouco. Depois comprou o Talho Verde no Rosário. Na altura, como eu era o mais “preguiçoso” da casa, não quis continuar os estudos e fui trabalhar com o meu pai para o talho do Rosário. Trabalhei para ele durante cerca de quatro anos e depois acabei por lhe adquirir o negócio. Já lá vão mais de 25 anos que sou o proprietário do Talho Verde.

E como foram estes 25 anos de actividade?

VS – Adquiri o negócio ao meu pai há cerca de 25 anos, mas trabalho em talhos desde criança. Recordo-me que o meu pai costumava colocar caixas no chão para que eu e o meu irmão pudéssemos chegar ao balcão, ou até mesmo para podermos chegar à mesa de trabalho para podermos desmanchar os portos ou cortar carnes. Desde que me lembro que ando envolvido nesta vida.
Depois que comprei o talho posso dizer que foram cerca de 25 anos em que estou no negócio sempre com muito medo e cauteloso para não dar o passo maior que a perna, isso também fica a dever-se à educação que tive e ao exemplo que recebi do meu pai. Ao longo destes anos optei por não crescer muito, preferindo ter um talho que se dedicasse à venda directa ao cliente. Contudo, apesar de não sermos uma grande indústria, passados estes anos fomos sempre crescendo e acompanhando o mercado, mantendo-nos sempre actualizados. Durante cinco anos, mantive o talho no formato antigo, como quando o recebi, mas depois decidi fazer obras e fazer um talho de raiz.

Esse foi o maior seu maior investimento?

VS – Sim, sem dúvida! O primeiro talho só vendia carnes verdes, sendo que os produtos transformados eram adquiridos em outros estabelecimentos. Com este investimento consegui aumentar o volume de negócio e passamos a ser nós a produzir todos os nossos produtos na sala de transformação que foi criada com as obras, estou a referir-me aos torresmos, chouriços e pé de torresmo.

Tem uma grande equipa?

VS – Nem por isso. Tenho uma equipa muito pequena. Este é um negócio familiar que é composto por mim e por mais dois elementos, contando com o apoio da minha esposa e da minha mãe que, sempre que pode, dá-me uma ajuda. Somos poucos, mas bons.

Ao nível da sua oferta, onde está a sua maior aposta?

VS – Na qualidade. Sabe, costumo ser contactado por algumas empresas com pedidos de orçamento para fornecer alguns restaurantes, hotéis ou eventos mas nunca envio preços, recuso-me a fazê-lo. Não porque tenha preços acima da concorrência, mas porque eu não ofereço preços, ofereço, acima de tudo, a qualidade dos meus produtos. Os meus clientes procuram-me pela qualidade da minha oferta, sem olharem para o valor da factura. Tenho clientes que vêm, de propósito, de várias localidades da ilha de São Miguel ao Talho Verde só para comprarem carne e isto acontece porque sabem que aqui a qualidade está garantida. É claro que o facto de sermos uma empresa de cariz familiar, mais pequena, em que valorizamos muito o contacto directo com o cliente acaba por ser também uma mais-valia porque nos vai aproximando de quem nos procura e acabamos por conhecer muito bem os nossos clientes e ficar saber as necessidades de cada um. Há clientes que já nem precisam dizer o que querem, nós já sabemos.
É importante referir que vender carne fresca não é o mesmo que vender, por exemplo, produtos enlatados. A carne tem características muito específicas. Há quem goste de carne mais suculenta, outros de carne mais seca, mais dura ou mais tenra. Eu já conheço os meus clientes todo, já sei o que cada um gosta e acabo por servir precisamente o que cada cliente deseja. Neste ramo, se acontece servir mal um cliente, no sentido de lhe darmos o produto errado, a pessoa pode não ficar satisfeita, não porque o produto não seja bom, mas porque pode não ser adequado para o fim a que está destinado.

O que mais vende no Talho Verde?

VS – Todos os nossos produtos vendem-se muito bem. Tanto a carne de vaca como a de porco são regionais, não vendemos produtos do exterior, como também não utilizamos matéria-prima para os nossos produtos transformados outra carne que não seja açoriana, mais propriamente de São Miguel. Temos um bife de novilho que é o mais tenro que existe no mercado.
Nos produtos transformados a nossa referência são os torresmos de molho de fígado, que fazemos questão de manter a receita tradicional, sem grandes alterações. Se fosse a pensar tornar um produto num preço mais competitivo isto implicaria ter que repensar na matéria-prima a utilizar, e não quero ir por este caminho. Não olhamos aos custos de um determinado produto para fazermos um trabalho de qualidade. Queremos é ter uma oferta de excelência e que esteja o mais próximo possível daquilo que fazemos nas
nossas casas.

Esta estratégia tem sido uma aposta ganha?

VS – Sim! Aliás, há alturas, principalmente no Verão, que chegamos a não ter capacidade de resposta a todas as solicitações. Se aumentasse a quantidade, de certeza que ia perder qualidade e isso não quero que aconteça. É claro que poderia aumentar as quantidades, mas acredito que se o fizesse poderia perder-se alguma coisa pelo caminho, ora porque o tempo de cozedura não foi o mais indicado, ou por algum outro motivo. Por isso, prefiro manter um bom resultado final em tudo o que faço.

Tem alturas do ano que vende mais do que outras?

VS – Sim. Este é um negócio que vende por tendências. Por exemplo no Verão há muitos emigrantes que vêm cá de férias, e estas pessoas procuram sempre os produtos regionais como o chouriço, pé de torresmo ou os torresmos de molho de fígado e, às vezes, não temos capacidade de resposta durante os dois meses mais fortes do Verão. Depois, em Dezembro, mais propriamente no Natal, também esgotamos a nossa capacidade de resposta.

É uma área muito complicada de gerir?

VS – Sim. Desde logo porque temos que conhecer muito bem tudo o que são carnes. Estamos num negócio em que a segurança e a higiene alimentar são fundamentais. Temos que dar garantias que os nossos produtos saem do talho em perfeitas condições e que seguem para casa dos clientes onde podem ficar durante alguns dias até serem consumidos. Esta é uma questão que me preocupa, por isso costumo perguntar aos clientes para quando pensam usar determinados produtos e se necessário dou recomendações sobre como acondicionar, da melhor forma, os produtos para que não se estraguem ou percam propriedades. Se é carne moída deve ser congelada ao chegar a casa, se é bife para consumir a curto prazo pode ficar no frio durante cerca de 4 ou 5 dias, porque é melhor do que congelar e depois fazer uma descongelação muito rápida. Tudo isso influencia a qualidade do produto.
Temos tido várias formações na área da higiene e segurança alimentar, também temos o nosso sistema de auto-controlo instalado tudo para manter sempre a qualidade do nosso Talho.

Arrepende-se alguma vez do caminho que decidiu seguir?

VS – Muitas vezes (risos). Gosto muito daquilo que faço, mas actualmente termos o nosso negócio não é fácil. Temos a isenção de horário, mas é sempre para mais horas de trabalho e nunca para menos, é necessário estarmos sempre muito atentos ao que nos rodeia e ao nosso próprio negócio. Eu estou sempre preocupado. Mesmo aos Domingos, dou sempre um salto ao Talho para ver se está tudo a trabalhar em condições. Se acontece não vir, fico sempre a pensar se poderá acontecer alguma avaria nas arcas frigoríficas por algum motivo, ou se haverá alguma falha de luz que possa influenciar a temperatura necessária. Ou seja, é um negócio do qual não consigo desligar mesmo quando não estou no talho.
Mas não me arrependo. Tive que fazer muitos sacrifícios, nomeadamente ao nível de gostos pessoais e familiar. Chega a acontecer não ver o meu filho acordado durante cerca de três ou quatro dias. Quando saio de casa ele está a dormir, e quando regresso ele já está a dormir. São sacrifícios que decidi fazer por gostar daquilo que faço.

Sente-se um empresário realizado?

VS – Por um lado sim, mas por outro não! Eu podia ter optado por ser um empresário mais ambicioso, com um grande negócio e uma grande equipa, mas decidi ter um negócio à minha dimensão, mais pequeno e mais familiar. Sinto-me realizado com o que tenho: não tenho dívidas, o estabelecimento é meu, temos uma situação confortável e já tenho outro projecto em vias de arrancar.

Que projecto é esse?

VS – Demos entrada na Câmara Municipal de Lagoa de um projecto que está para aprovação para a criação de um outro talho na cidade de Lagoa, sendo que a ideia será ficar apenas com o novo talho e fechar o actual. É importante estarmos sempre muito atentos ao mercado e, nos dias de hoje, ter uma loja e estar parado, considero que não é estar parado, mas sim andar para trás, porque a sociedade evolui e os negócios também e é preciso acompanhar esta evolução e seguir em frente. Não nos podemos dar ao luxo de pensar que já fizemos algo e não precisamos fazer mais nada, esperando que o cliente venha ao nosso encontro. Os hábitos alimentares estão a mudar, bem como o perfil dos clientes e é preciso acompanharmos estas evoluções. O cliente que vai a pé ao comércio tradicional está cada mais a desaparecer e, como actualmente não tenho parque de estacionamento, tive que repensar no negócio. Também a minha sala de laboração está preparada para apenas os produtos típicos regionais e quero evoluir nesta área.

Está a idealizar aumentar a sua oferta actual?

VS – Sim, indo ao encontro das necessidades do mercado actuais. Estamos a pensar ter um serviço de take away, com frango grelhado, entre outros produtos. Temos que analisar estas mudanças nos hábitos alimentares e nos irmos preparando para o futuro.

Nunca pensou em ter mais do que um talho?

VS – Não temos qualquer outro ponto de venda ou fornecemos outras lojas. Prefiro ter apenas um talho. Este é um mercado muito competitivo e prefiro não ir por aí. Se fosse, teria que repensar preços e, volto a frisar, o nosso objectivo é a qualidade e não o preço.

Como olha para o futuro do Talho Verde?

VS – Vamos apostar tudo o que temos neste novo projecto. Vamos ter um novo estabelecimento no centro da cidade de Lagoa, com melhores condições para laborar, com um parque de estacionamento que é fundamental para os clientes, por isso, neste momento, as expectactivas estão bastante elevadas.

Sendo este um negócio familiar, acredita que terá continuidade com próxima geração?

VS – Espero bem que sim. O meu filho mais novo ainda só tem quatro anos, por isso ainda é cedo para falar, o mais velho tem 16 anos, está na escola, mas, para já, não te sem mostrado muito interessado. Ainda é cedo para tirar conclusões. Com a idade dele eu já trabalhava, mas nos dias de hoje é crime. Não posso trazer o meu filho para o talho e fazer com ele o que o meu pai me fazia, por isso é difícil dizer se ele tem apetências para o negócio. Mas veremos… Eu gostava que o talho continuasse na família.

oliveriasantos@diariodosacores.pt

(Olivério Santos – Diário dos Açores de 24/02/2019)

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